Sociedade do cansaço

Como analista, passo meus dias a escutar e a refletir, privilégio do meu oficio. Me pergunto muitas vezes sobre a falta de sentido e a falta de espaço para que a vida adquira sentido, mesmo para aqueles que se propõem a buscar por isso. É senso comum estarmos todos muito sobrecarregados pela ausência da possibilidade de recusa do excesso de presença, do excesso de desempenho, do excesso saber, do excesso de oportunidades, do excesso de prazer, do excesso de necessidades a preencher – e aí o prazer surge como mais uma necessidade a ser preenchida. Mas o que surge como falta frente a todo esse excesso é de tempo para desejar.

A aceleração de hoje tem muito a ver com a carência do e de ser. Reagimos com o frenesi do trabalho e da produção, com hiperatividade. A partir disso, o esvaziamento de sentido reduz tudo aquilo que deveria ser produtivo a uma obra vazia, tendo em conta que quantidade e qualidade - em geral - não sentam no mesmo banco.

Fazer girar o relógio do tempo a nosso favor é um grande desafio, o desafio de existir frente à todo conjunto de demandas que se lançam contra nós sob a ordem de sermos felizes. Não existe nada mais escravagista do que a sociedade do desempenho e do consumo, que transforma a todos em mortos-vivos, na esperança de ter acesso ao transporte para o paraíso. Somos, ao mesmo tempo, vítimas e agressores de nós mesmos, condenados ao martírio eterno do trabalho de Sísifo. Na mitologia grega, Sísifo foi punido por Zeus com o castigo de rolar, com as próprias mãos, uma enorme pedra de mármore até o cume de uma montanha. Porém, uma vez que alcançado o cume, a pedra, movida por uma força irresistível, rolava novamente montanha abaixo e retornava ao ponto de partida. O trabalho precisava ser feito novamente, para retornar sempre ao mesmo ponto. Assim, esforços repetitivos e fadados ao fracasso são chamados de trabalho de Sísifo.

A atividade do pensamento, segundo a filósofa Hannah Arendt, é aquela que nos faz refletir, que permite decidir, que ajuda a escapar do martírio do esvaziamento de sentido daquilo que em essência deveria ter sentido - a própria vida. Contudo, a exigência de sentido também pode se tornar uma escravidão. Neste ponto, Eros – a força amorosa vital – já pode ter se transformado em Thanatos, a energia que empurra para a  destruição e a morte.

Certa vez, escutando uma historia sobre o temor de ser perseguido pelos mortos-vivos, me dei conta que o principal receio é exatamente o de ser um morto-vivo. Se alguém sofre com esse receio, certamente não o é, porque morto-vivo é justo aquele que vive no não-sentir, não-pensar, não-fazer - perambulando eternamente atrás daqueles que fazem seus movimentos e que reagem afetivamente às angustias da vida.

Talvez todos esperassem deste singelo texto uma conclusão. Não é meu propósito. Meu propósito é apenas incitar a falta, às perguntas sobre em que zona da existência cada um vive. Me recuso a concluir, eliminando assim o receituário que obtura o surgimento da perspectiva do pensar. Lanço o desafio que é perguntar-se por que e para quê.

Boa sorte!

*Esse texto está atravessado pelos desenvolvimentos de Byung-Chul Han em livro do mesmo nome.

Escrito por Doris Santos; Psicanalista. Fundadora do PROJETO – Associação Científica de Psicanálise e Diretora Científica da Instituição. O PROJETO - Associação Científica de Psicanálise tem como finalidade promover, transmitir e difundir o pensamento psicanalítico formando uma comunidade científica produtiva em Passo Fundo e região. Conta com atividades internas de seminários de cunho formativo para profissionais e estudantes e outras abertas à comunidade, sempre visando à inserção social da psicanálise e integração entre o nosso afazer e a concepção de que as intervenções na cultura, educação e nas áreas médicas afins sejam intervenções concretas.

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