Os ensinamentos não envelhecem

Um inconveniente da juventude, em regra, é o pedantismo. Fazer o quê? Se paga um preço sempre, maior ou menor, mais tarde. Há uma fase da vida em que sabemos tudo e quem nos atura? Um professor do curso de filosofia, nos anos de 1960, nos passou extensa bibliografia onde estavam, entre outros, o holandês Erasmo de Roterdã (nascido em 1466). Teólogo e humanista foi polêmico e a gente não soube aproveitar a chance que nos foi dada naquele momento para aprofundar seu pensamento. Mas tudo bem, aprendi pouco e lembro pouco, mas nunca é tarde para remediar.

Do seu livro Elogio da Loucura, onde estraçalha a visão de mundo de então, dá espaço especial aos loucos, aos velhos, às crianças, aos bêbados e questiona o que seria “normal” recordo de observação intrigante: “O sábio se refugia nos livros antigos e neles só aprende frias abstrações. O louco, ao enfrentar a realidade e os perigos, adquire a meu ver, o bom senso”. Em outra – o professor de arte levou horas para explicar – ele referiu a existência de um lugar tão belo que a natureza não tinha necessidade da arte.

Mas incrível, na releitura de algumas passagens na obra de Erasmo, é sua ácida atualidade, quinhentos anos depois, quando se trata do mundo da politica. A observação “toda tolice, por mais grosseira que seja, sempre encontra sequazes”, vem à tona porque parcela expressiva da minha geração – assim como parece acontecer hoje – não teve clareza suficiente para separar gato de lebre. A facilidade com que engolimos pílulas que surgem no caminho reforça outra frase do teólogo cuja seleção pode chegar ao titulo mundial de futebol: “uma boa parte de um discurso consiste em saber como mentir”.

Imagino o teólogo holandês num palanque eleitoral discursando, com veemência para a massa: “Os males que não são percebidos são os mais perigosos” (Hitler iniciou na moita). E, seguindo em frente nesse caminho, sob aplausos fortes, dizer: “Os maiores males infiltram-se na vida dos homens sob a ilusória aparência do bem”. Ai ficamos girando a cabeça e olhando para os messiânicos governos populistas e nos perguntamos: por que não o lemos mais com atenção antes?

A percepção da realidade europeia dos idos de 1500 fez Erasmo de Roterdã afirmar que “um homicídio faz um celerado, milhares de homicídios fazem um herói.” Pois é, trata-se de outra lição que nos chegou com atraso. No final dos anos de 1960, já sabíamos aqui no Brasil, denunciados por Nikita Kruschev, sobre os crimes hediondos cometidos por Josef Stálin e Vladimir Lenin e nós, imberbes influenciados por frívolos intelectuais franceses, justificávamos as milhões de mortes em nome de algo maior. Afinal, o que pode ser maior do que a vida?

Com isso, não conseguíamos fugir de outra dura sentença de Erasmo: “aquele que permite a opressão compartilha do crime”. Sim, sim, os crimes no Camboja, na Rússia, na China, Albânia, Alemanha Oriental, Coréia Norte, eram justificados em nome de algo maior e melhor a ser construído. Sim, sim, ainda hoje há mentes que se dizem sagazes aplaudindo os crimes cometidos e que ainda se cometem em Cuba.

O que Erasmo escreveria hoje?

* Da Academia Passo-fundense de Letras

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