Saúde

A sala mais colorida do terceiro andar

Autor: Daniel Rohrig
A sala mais colorida do terceiro andar
Foto: Daniel Rohrig/DM

Em seu terceiro ano de atividades, o projeto Escola de Vida desenvolvido no Centro Oncológico Infantojuvenil do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), em Passo Fundo, transborda exemplos de superação e de aprendizagem, tanto para alunos quanto para os profissionais que atuam na instituição

De todos os oito andares do prédio que abriga a oncologia infantojuvenil do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), o terceiro piso é o que faz o olho de Quétlin Cristina Flores Hoffmann, 12 anos, brilhar mais forte. Desde o ano passado, a pequena menina que sonha em ser médica veterinária viaja de Palmeira das Missões até Passo Fundo para tratar uma leucemia. Entre a ida e a volta, a jovem percorre aproximadamente 260 quilômetros para enfrentar o tratamento contra a doença e passar por todos os procedimentos. Com a rotina alterada, Quétlin teve de se afastar das aulas regulares que frequentava, o que de forma alguma a impediu que continuar tendo aulas e persistir na ideia de entrar na faculdade no futuro.

Fomos recebidos pelo sorriso tímido que Quétlin deixou escapar enquanto finalizava mais um de seus poemas. Ao lado dela, uma multidão de pecinhas coloridas integravam um cenário acolhedor, aconchegante e por vezes divertido. “Eu faço várias atividades aqui, mas o que eu mais gosto são as contas de matemática”, revela a paciente. Questionada sobre seguir a carreira de exatas, a jovem logo intervêm e abre o jogo. “Prefiro a veterinária. Quando eu puder ter um animal de estimação, vou ter um cachorrinho”, conclui com convicção. Junto da aluna aplicada, a professora Sílvia Ricci, 44 anos, que integra o projeto desde sua primeira atuação dentro do hospital, lembra com emoção as primeiras vezes em que trabalhou com os pacientes. “Quando eu li no jornal que teria esse projeto, em fevereiro de 2016, eu pensei: é esse o meu lugar. Eu já era professora da rede municipal e entrei em contato com a secretaria de educação para fazer parte. Desde então, trabalho em período integral aqui com os pacientes, que em virtude da doença, precisam se afastar da escola para o tratamento”, explica a professora.

A iniciativa consiste em oportunizar a construção de conhecimentos acadêmicos no espaço hospitalar, oferecendo a crianças e jovens com câncer, momentos de ludicidade e aprendizagem, para uma melhor qualidade de vida. O município disponibiliza professores com carga horária de 20 horas semanais para atuarem no projeto. Nesse contexto, para que os pacientes não tenham prejuízo no desenvolvimento da aprendizagem e para que não percam o ano letivo, a parceria dá o suporte necessário para esses alunos. “Eles ficam por vezes até dois anos afastados da escola. Por mais que com o atestado os pacientes não reprovam, havia uma carência de aprendizagem. Aqui, nós não deixamos que eles fiquem sem aprender”, pontua Sílvia. O Ministério Público também tem importante parceria no projeto, mediando a colaboração entre hospital e os municípios de origem das crianças atendidas.

Ao longo dos anos, os números foram crescendo. Desde que iniciou as atividades, a quantidade de municípios atendidos praticamente dobrou. São pacientes de sessenta e seis cidades que já tiveram passagem pelo projeto Escola de Vida. Hoje, 24 pacientes tem compromisso firmado com as atividades pedagógicas dentro do HSVP e outros 21 estão em acompanhamento, pois estão retornando ou já retornaram às atividades na escola regular. “Hoje, quando vou consultar, vou perguntar para o doutor se eu já posso voltar para a escola. Se ele falar que sim, vou ficar muito feliz”, confessou Quétlin, que fez questão de esboçar um sorriso logo que concluiu a frase. A cada vinte e um dias, a pequena retorna ao HSVP para continuar o tratamento. Horas mais tarde, após a consulta na qual citou durante a entrevista, Quétlin foi informada pela junta média que o tratamento progrediu e que retornará às aulas normais a partir da próxima semana. O desejo da pequena, de apenas 12 anos, se concretizou, para a alegria da família, corpo clínico e da própria jovem.

Os professores da saúde

A logística por trás do projeto Escola de Vida consiste em contatar todas as escolas de origem dos alunos em tratamento no HSVP. A partir daí, as professoras do projeto mapeiam os conteúdos que os alunos teriam em seus municípios e replicam as tarefas no hospital. Dessa forma, mesmo que a distância, os pacientes são instruídos conforme os antigos colegas, o que proporciona a manutenção do nível de aprendizagem e facilita o retorno à escola regular após o término do tratamento. “Nós não fazemos as avaliações do ensino médio, por exemplo. De acordo com a faixa etária do aluno o processo é diferente. Em termos de ensino fundamental, caso a escola mandar provas, nós aplicamos aqui e no fim, confeccionamos um parecer com tudo o que as crianças aprenderam ao longo do ano, para validar o período letivo deles”, explica a professora Sílvia Ricci.

Nem sempre as crianças conseguem vir até a sala pedagógica para serem atendidas. Desta forma, é a sala de aula que vai ao encontro dos alunos. “Muitas vezes o paciente está debilitado para de deslocar até a sala e, por isso, nós vamos com todo esse suporte até o ambulatório e é lá que as crianças e jovens têm aulas. Ser professor dentro do hospital exige mais da gente do que uma sala de aula habitual. Aqui temos que acompanhar detalhes quanto a imunidade, temperatura corporal, cuidados com a saúde. Não só a parte pedagógica, mas a questão de saúde também”, explica Sílvia.

“Aqui, o nosso trabalho pode ser resumido em uma única palavra: emoção”, define a professora Daniela Dias, 36 anos. A profissional trabalha no projeto desde fevereiro do ano passado e desde então, confessa que vive sensações extremas todos os dias. Daniela divide a rotina entre vinte horas semanais ministradas na rede municipal e outras vinte horas dedicadas ao projeto. “É um trabalho mais minucioso. Em uma sala de aula regular, nós atendemos turmas de vinte alunos ou mais. Aqui, o envolvimento é diferente. São menos alunos em uma condição singular, pois eles passam por um tratamento. O apoio dos pais é mais intenso e nós criamos uma ligação muito forte com todos eles”, relata a pedagoga.

Reflexos no tratamento

Quase no fim da entrevista, ao fundo, em um dos corredores do terceiro andar, a voz suave de uma criança comemorava o diagnóstico de que estava liberada para voltar à escola. O tratamento, enfim, surtiu o efeito esperado pela família. “Esse é o nosso maior retorno, é poder ver a alegria deles com os avanços contra a doença que enfrentam. São pequenos guerreiros”, conta Sílvia, emocionada, assim como todos dentro da sala. O feedback da equipe médica após o início do projeto Escola de Vida não poderia ser mais positivo. Os avanços na recuperação das crianças atendidas reflete na resposta ao tratamento, que, em média, é bastante satisfatório.

“Eu fiquei muito surpresa quando cheguei aqui. Tinha aquela ideia de que eu entraria no hospital e iria me deparar com uma realidade completamente diferente, como é de praxe quando falamos em ambientes hospitalares. Mas, pra minha surpresa, a alegria dessas crianças me deixou realizada. A receptividade delas, o esforço e a dedicação enquanto estudam aqui no projeto”. A professora Daniela conta que o sorriso é sua melhor ferramenta de trabalho no hospital.

Reuniões quinzenais com a equipe multidisciplinar ligada ao projeto são um dos principais indicativos da efetividade do Escola de Vida dentro do HSVP. De acordo com as profissionais, devido ao grau de afetividade construído entre pacientes e equipe pedagógica, as demais áreas também solicitam auxílio às professoras para a evolução dos alunos no tratamento. Como prova da força dos laços estabelecidos durante o período de trabalho com os alunos, a pequena Quétlin deixa claro que mesmo voltando a frequentar a escola regular, as visitas para as professoras Sílvia e Daniela vão continuar. “Eu volto pra escola, mas vou voltar aqui também para ver as ‘profes’ no hospital”, finaliza.

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